A arte sonora, considerada a investigação sobre o som através do próprio som, que como suporte da obra torna-se ao mesmo tempo objeto e reflexão, ou o som organizado no espaço, opondo-se à definição mais comum da música como som organizado no tempo, é uma experiência híbrida, que ultrapassa as fronteiras disciplinares. Se as vanguardas históricas buscavam a sinestesia; na arte contemporânea, os quadros espaciais, temporais e históricos se revelam em um incessante transbordamento dos antigos limites, e também na vertigem de operar nas instâncias últimas de seus limites, quer seja da materialidade, do corpo do artista ou dos meios.

Romano é um artista que vem trabalhando com arte sonora há alguns anos. Em 2004, começa a trabalhar com computação gráfica, desenvolvendo seus poemas visuais. Alguns deles são apresentados nesta exposição. O trabalho com o som se impõe em seguida, com inúmeras apresentações e performances. O artista desenvolve um programa de rádio, o Inusitado, no início dos anos 2000, na Rádio Madame Satã, no qual tenta formar um território por meio do som. Nesta mostra, aparelhos de rádio reproduzem pequenas radionovelas de sua autoria.

Em Sonar, também são apresentados vários trabalhos feitos para esta ocasião, como Turbina, que traz o som do mar, numa espécie de site specific, visando asituar o trabalho e toda a exposição no fluxo de repetir, repetir e desviar, evocando a cadência do mar, tão próximo e imponente. Utilizando-se de mais de 200 alto-falantes em diferentes objetos cotidianos, como cômoda com gavetas, caixas, máquinas de escrever e outros, os ruídos vão se alternando, em sua desordem. Acusmata, cujo título refere-se a quem não percebe a origem do som, é uma paisagem sonora, cujos sons são da cidade do Rio de Janeiro. As esculturas cinéticas formadas pelas máquinas de escrever emitem ruídos acionados por motores, remetendo ao filme O processo, de Orson Welles, bem como à palavra e sua relação com a imagem. Como não poderiam faltar, alguns dos seus ótimos Chuveiros sonoros, com anônimos cantando no banho, estão em espaços externos às galerias. Os Sapatos sonoros, relacionados ao corpo sonoro, são apresentados na abertura.

 

A palavra ruído, no senso comum, significa barulhosomou poluição sonora não desejada. Adquire, porém, outros significados em diversas áreas. Na música, foi introduzido pelo artista futurista Luigi Russolo e seus intonarumori. Para Romano, além do aspecto político, por estar à margem e ser, assim, expressão desordenada, “o ruído é a expressão do mundo, é indeterminado, então ele toca direto nos sentidos, fala direto com os sentidos (...)”.[1]

Glória Ferreira



[1] Glória Ferreira. Entrevista de Floriano Romano a Glória Ferreira. In: cat. Paisagem sonora. Rio de Janeiro: Funarte, 2013.